| A Noite |
[19 Nov 2005|02:45am] |
Quando pequeno, idealizava um escritor como uma pessoa que passava o dia dormindo e a noite em frente ao computador, digitando seus textos, tomando café forte e fumando muito. De vez em quando, quando a inspiração sumia, acendia um outro cigarro e ia até a sala assistir Intercine, um pouco, ou rir da piadas do Jô. Idealizava um escritor como uma pessoa que tinha coragem o suficiente para abandonar a cama confortável e, as quatro da manhã, preferir o frio e a escuridão, do que o descanso que a cama podia proporcionar. No entanto, nunca consegui entender o que de tão precioso havia na noite que não havia de dia. Por que os escritores escreviam de noite, e não de dia, como todo mundo. Afinal, se esse é o trabalho deles, por que não fazer num horário comercial, com direito a horário de almoço?
Mas, não. Eles preferem o breu da noite à cama. O barulho perdido e distante de uma motocicleta, do que os sons rotineiros da tarde. Preferem ter os olhos pesando do que perder uma idéia. Sabem que se deitarem, perderão a idéia, e se arrependerão para sempre. Sabem que se forem, se partirem, deixarão para trás algo tão querido, que a ferida nunca se recuperará. Ganham olheiras, mal humor, sono. Ficam amigos da cafeína e da nicotina, e quando nenhuma das duas é capaz de lhe segurar em pé, ele finalmente se deita, frustrado, com a cabeça fervilhando.
Nunca entendi por que esse amor pela noite. Nem mesmo agora, em que as pálpebras pesam e meu corpo pede pela cama, eu consigo parar. A noite deseja isso de mim, e eu faço o possível para dá-la esse prazer.
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